Blockchain: Sobre a essência da verdade

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A referência a Heidegger não é inocente. Na génese do tema não há mestria que resolva na simplicidade a proeminente questão da existência – humana e não humana: o que é a verdade. Numa curta mas necessária analepse, recupero memórias há muito protegidas e pouco usadas mas preciosas nos dias presentes: as emocionantes aulas da Professora Mafalda Blanc com quem tive o privilégio de partilhar 2 anos de pura (in)sapiência. A ideia era sempre, e cito, “explicitar o que autor quis dizer mas não escreveu”. O tempo transforma-se mas a premissa continua válida. Na divisão primitiva entre fenómenos possíveis, o estado real da nação tecnológica cruzou-se com uma não efémera realidade social onde o abismo de uma empáfia doentia se sobrepõe a toda e qualquer possibilidade de verdade. Para os mais relapsos, aproveitam-se técnicas psicologicamente avançadas para alquimiar o que mais de genuíno e simples ocorre na base do conceito: a distribuição de poder. Pensar sobre distribuir poder causa pandemónio, pânico, angustia e, a alguns, até dormência. Ninguém resolveu o problema, nem mesmo Heidegger. Colocar apenas humanos a inferir sobre a verdade não era, desde a aurora da questão, suficiente. Até porque na suprema assunção de poder, nós, Humanos mas mortais; Pregadores da razão mas distribuidores da mentira; mestres da ficção e da fantasia; falamos do que pouco sabemos e criticamos com aparente “virtude” o que intimamente fingimos acreditar.

Heidegger, porém, não mais podia alegar. Não existia computação, capacidade extra-humana de validar e confirmar verdade nem mesmo fenómenos singulares simples. O tempo e o espaço, onde A.E. nos teria muito a educar, transformou-se. No presente, a tecnologia trouxe-nos apetrechos genuínos que descobrimos sem saber onde um simples anónimo criou um protocolo para elevarmos a verificação do fenómeno a um nível nunca antes imaginado.

A incubação foi ignorada. O nascimento criticado. Era como se um grupo de delinquentes juvenis estivesse a pintar paredes públicas em protesto contra uma sociedade invisual (leia-se: cega) perante a ladroagem dominante. Para uns éramos anónimos; para outros éramos piratas; e haviam ainda os que nos achavam exóticos, portadores de um erotismo que apenas servia para animar o sarcasmo das suas soberbas cavaqueiras de café. O tempo riu-se. O espaço olhou. E hoje estamos aqui, em pleno acidente previsível. Ao contrário do que se possa inferir, o produto em si, entenda-se a Bitcoin, não é mais do que uma criação burguesa e elitista para irritar a nobreza vigente. É para eles aborrecido, dramaticamente sacal, sermos ricos sem ter de bajular (era para escrever lamber) os farsantes nobres do sistema. E até por muito que exaltem liberdade social a urticária que lhes causa terem comprado Bitcoin a mais de 10.000 € ou, no caso dos mais medrosos, ainda nenhuma terem comprado, faz com que a nossa posição, o nosso modelo, seja uma afronta ao seu ilusório status social.

O interessante do fenómeno é que, depois de um ano exaustivo no terreno, descobri uma parte da essencial verdade: é que 98% dos especialistas, palestrantes, escritores, oradores, mestres, druidas, entre outros, nunca tocaram, sentiram ou operaram qualquer criptomoeda. Os tais marginais – sicários ou excluídos – do protocolo proposto, encontraram então uma escapatória surrealista para a sua sedenta orexia de poder: chama-se Blockchain. É como se um individuo, determinado a ser uma estrela de futebol, comece a praticar o seu eventual potencial de jogador como cortador de relva do estádio alegando que é no relvado que se joga à bola e tornar-se o derradeiro especialista em plantação de relva; sistemas de irrigação; problemáticas botânicas; aquecimento global; e até a vida sexual das bactérias probióticas que preservam aquele lindo verde característico.


A fantasia até pode ser hilariante, ou para alguns pedante, mas não se iludam: sem bola não há futebol tal como sem Crypto não há Blockchain. Na humildade que se encerra em mim e regressando à máxima de “explicitar o que não está escrito”, são infinitas as vezes que me pergunto: o que fazem este indivíduos aqui? São visivelmente contra descentralização; claramente contra distribuição de poder; absolutamente contra o pensamento livre e democrático; visivelmente desesperados por moedas fiduciárias; presunçosamente dissidentes da verdade; historicamente camaradas da ladroagem vigente: mas dizem-se amantes da Blockchain. É como um ateu tomar de assalto a basílica de São Pedro por trazer uma milionária carteira de “clientes” mas esconder o Papa por simplesmente lhes tirar o protagonismo ou desconhecerem a doutrina cristã.

Confessar ser anónimo ou pirata seria deselegante. Contudo, exótico soa bem. Tão bem quanto o vendedor de cachorros da 24 de Julho (conhecida avenida de Lisboa) começar a vender salsichas certificadas em Blockchain e com uma propaganda inspirada no slogan: Suínos garantidamente alimentados a bolota, amados e criados em ambiente familiar. As hipérboles de casos de uso de Blockchain são isto mesmo: uma admirável pintura de Dali sem a substância e genialidade do mestre original. Porquê? Porque queremos vender, consumir, comprar mas não estamos colectivamente preparados. Não estamos preparados para que exista uma base de dados que nos audita e que não podemos editar; que não cede a nenhum capricho ou favor para satisfazer uma minoria contra a maioria unificada.

A proposta torna-se simples: cabe-nos a nós, exóticos digitais, explicitar o que não é dito, o que não se escreve e defender, acima de qualquer interesse pessoal, a incessante busca pela verdade.

Do movimento original ramificado podemos escolher livremente o percurso a seguir optando naturalmente pelo acesso que nos parecer mais favorável. Todavia, aceitar privatizar um direito digital publico, que precisa de alargado consenso para atingir todo o seu potencial e esplendor parece ser o mesmo que o grupo que para praticar exercício físico ao ar livre vai passear de Lime.

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